quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Kyrie Irving e os Cavs: orgulho e preconceito



     Algo de estranho se passa em Cleveland. Às queixas de Bynum (entretanto nos Pacers) sobre o alegado mau ambiente no balneário causado por Kyrie Irving, passando pela decepção de Luol Deng (recém-contratado aos Bulls) com certos comportamentos, até aos rumores de que Kyrie Irving, o jovem point guard dos Cavs e primeira escolha do Draft de 2011, estaria a equacionar abandonar a cidade de Cleveland e partir rumo a melhores ventos em 2015. Paralelamente, a equipa vai jogando mal, sem espírito competitivo, desligada ofensivamente ( a única jogada que Mike Brown parece promover é a que já usava nos tempos idos de LeBron, ou seja, get-the-ball-to-the-star-and-run-away) e com uma defesa… inexistente. Se o mau ambiente no balneário é causa ou consequência dos maus resultados ainda se está para perceber, mas o que resulta para já evidente é a inexistência de qualquer química entre os jogadores de Cleveland. O caso torna-se particularmente preocupante quando a equipa actua numa das Conferências mais fracas dos últimos anos.

     Um dos problemas que Kyrie Irving enfrentará em 2015, se se confirmar a vontade de sair, é que, segundo o seu contrato, será apenas um restricted free agent – o que significa que aos Cavaliers basta igualar a melhor oferta que uma outra equipa fizer pelo point guard para que Uncle Drew fique vinculado a jogar o mesmo número de anos propostos na equipa que o acolheu. A alternativa seria assinar um contrato de 1 ano – uma qualifying offer – no valor de 9 milhões de euros, valor que dificilmente satisfará o habilidoso base. Na eventualidade de assim acontecer, certamente será trocado logo no início da época, uma vez que os Cleveland não quererão perder mais um All-Star sem receber nada em troca, como aconteceu com LeBron James – mas isso já só ocorreria em 2016.


O Preconceito:     
     O cenário que melhor satisfaria às partes seria, claro está, Cleveland começar a ganhar. Mas o sucesso precisa de ser construído. Desde logo, os Cavs teriam que mudar a sua política de jogadores. Actualmente, a equipa de Este tem optado por reunir o máximo de jovens promissores (Irving, Waiters, Zeller, Bennett, Tristan Thompson,…) , mas o efeito, ao invés de construir um plantel ambicioso, tem sido nocivo: todos querem mostrar serviço individualmente para merecerem grandes contratos, mas estão pouco interessados em jogar basquetebol enquanto desporto colectivo – é o oposto do que acontece em New York, com os Knicks. E isto porque falta veterania na equipa capaz de impor e ensinar aos recém-chegados as chaves para o sucesso na NBA (Bynum não tinha, nem tem, perfil para servir de tutor; Jack está feliz com o grande contrato que conseguiu e não se precisa de preocupar muito com os miúdos à sua volta; Varejão batalha ainda com a busca pela regularidade, devido às fustigantes lesões que tem vindo a sofrer ao longo dos anos; Deng chegou a meio da época a um balneário já destruído).




     Não menos importante é repensar a situação do treinador, Mike Brown. O ex-Laker tem falhado em cumprir o papel de orientador dos jovens e em trazer de volta o caminho das vitórias a Cleveland, após os sucessos da era LeBron (apesar de ter sempre falhado o anel). Basta ver um período de um jogo de Cleveland para se perceber que o treinador não está a desempenhar nenhum papel proactivo na prestação da equipa: ataca-se mal e não se defende. Parece que estamos a ver um grupo de jovens atletas basquetebolistas que se juntaram no momento para fazer uns cestos (este ano até já tivemos Bynum a tentar triplos!).

O Orgulho:
     Mas Kyrie não é livre de culpas. Chegou cedo à NBA, já rotulado como um point guard de nova geração, mas a verdade é que, e em particular com Mike Brown, não tem sido um jogador capaz de elevar o jogo dos seus colegas. O seu papel de comandar o processo ofensivo resume-se a reter em demasia a bola, lançamentos difíceis e, ocasionalmente, encontrar CJ Miles ou Waiters livres para um jump shot – culpa igualmente da incompetência do técnico Mike Brown. Ainda assim, dificilmente pode Kyrie Irving exigir um tratamento ao nível de uma superstar quando, na realidade, pouco fez para o merecer. Actualmente, não é um dos 5 melhores bases da Liga (sérias dúvidas se estará sequer no top 10) e vive mais da fama associada ao nome do que dos méritos do seu jogo, mais dos highlights que consegue devido à espectacularidade da sua técnica do que de vitórias.

Um exemplo da técnica de Kyrie Irving, com um dos mais espectaculares crossovers dos últimos tempos.

     Claro que os tenros 21 anos do base o protegem muitas vezes de críticas. O potencial e o talento são enormes, ninguém duvida. Mas se, por um lado, Irving se escuda na sua precoce idade para se defender de críticas, por outro também não pode exigir ser tratado como um base com provas dadas na NBA. Chegou a altura de alguém dizer ao Uncle Drew que o sítio para evoluir e se tornar numa base de equipa é o presente. Até porque se, de facto, vier a sair, a questão vai deixar de ser quão maus são os Cleveland, para passar a ser porque não conseguiu Kyrie Irving levá-los ao sucesso?